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Gira de Caboclos

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Todos os Caboclos são regidos por um Mistério Maior que pertence ao Trono do Conhecimento (Orixá Oxóssi).
As sociedades tribais existentes no Brasil no ano de 1500, quando Pedro Álvares Cabral aqui desembarcou, já era de muito tempo um sistema de vida compartilhado por milhões de pessoas.
Os valores morais tinham destaque nessa sociedade pré-cabraliana e a figura da família existia entre os brasileiros que aqui viviam.
Eram sociedades fechadas em tribos que viviam em ocas individuais ou em construções maiores, compartilhadas por todos.
Entendemos que se comportavam como os clãs europeus ainda que aqui a figura da posse não existisse.
Tudo era de todos e ninguém era dono de nada. Tudo era compartilhado entre todos!
A posse, a ambição, o acúmulo de bens, a distinção social, os graus hierárquicos de uma escala social, etc., inexistiam. Assim como inexistia o apego a um local, a uma propriedade!
A natureza era a morada de todos e, quando o lugar já não sustentava mais toda a tribo, esta se deslocava para outro, às vezes já ocupado há muitos anos antes, mas que havia sido abandonado para que a natureza em volta se recuperasse.
Era um modo de vida conservado de geração para geração desde séculos incontáveis.
Os espíritos que aqui encarnavam estava livres da ganância e da ambição existentes em outros povos.
Entre os indígenas brasileiros inexistiam as noções de pecado dos europeus cristãos, dos árabes, dos judeus e mais alguns outros povos, onde o corpo tinha que ser coberto com roupas pesadas por causa das variações climáticas.
Os indígenas viviam nus ou seminus e a nudez não era entendida como pecado ou exibicionismo.
Viviam nus e o corpo alheio não despertava curiosidade ou "desejos condenáveis".
As pessoas eram naturais nos seus comportamentos e o fato de homens e mulheres estarem nus uns na frente dos outros não ativava a libido de ninguém.
Nasciam, cresciam, viviam e morriam nus ou seminus e ponto final.
O elo entre casais fundamentava-se em valores morais próprios dos povos indígenas que aqui viviam.
Quem ficou incomodado com a nudez deles foram os conquistadores europeus, entre os quais a exposição do corpo era um pecado e um ato condenado por leis rigorosas.
A Bíblia criou a sua noção de pecado com Adão e Eva e estigmatizou o sexo como fonte de todos os males que afligem a humanidade.
Entre os índios brasileiros o sexo era para procriação e obtenção de prazer entre marido e esposa.
Havia homens com uma ou mais esposas. E havia mulheres com um ou mais maridos (estes casos mais raros).
A estrutura familiar era muito bem definida, e quando um homem tinha mais de uma esposa, era para não deixarem uma viúva sem um homem para cuidar dela, de suas necessidades íntimas e de sua prole.
Era um sistema, um modo de vida ordenado, pois a viúva, após unir-se a um homem já casado, era-lhe fiel e tanto o respeitava que não o traía com outros homens, assim como auxiliava nos deveres domésticos.
A noção de amparo a quem ficava sozinho era geral e nisso não viam pecado ou libertinagem, mas sim a manutenção do equilíbro nos relacionamentos humanos.
Essa sociedade humana, incompreendida pelo europeu atormentado pelo "pecado original"e bíblico, era uma utopia que deveria ser condenada e aniquilada da face da Terra, pois constituía uma afronta aos olhos de Deus a existência de um povo pecador e tão feliz!
Às esposas européias que para cá vieram, ao saberem que seus maridos quando iam às aldeias, também viam nuas as "despudoradas" selvagens, era uma afronta... E mais uma razão para o extermínio dos "pecadores indígenas".
Saber que seus maridos poderiam cometer o pecado com alguma índia mais assanhada enquanto o padre condenava toda libertinagem por parte das mulheres européias (ainda que hoje tudo esteja distante no tempo), foi um dos fatores que levou o extermínio a um povo tão natural quanto ao sexo.
Índios com o corpo nu diante de suas esposas foi outro fator que levou os europeus a não querê-los por perto, a não ser como escravos já com suas partes pudentas cobertas.
Falta de ambição, desapego à posse da terra e de outros bens, inexistência de noções sobre o tal pecado original de Adão e Eva, uniões e separações de casais a partir de leis que não as "cristãs"!
Eis aí as principais causas do extermínio de milhões de índios brasileiros no decorrer de cinco séculos de existência dessa grande nação, onde o índio pagão não tem lugar no céu dos batizados por um padre.
Mas, se isto é parte da história do Brasil pós-Cabral, a verdade é outra e os índios tanto têm alma como vão, sim, para o céu... ou para as trevas após desencarnarem.
Afinal, Deus, deem-lhe o nome que quiserem, criou tudo e todos e só alguns fanáticos religiosos creem-se os privilegiados por Ele.
E não é a mesma doutrina cristã que prega que serão só os humildes, os virtuosos, os não invejosos, os não ambiciosos, etc., que entrarão nos reinos dos céus? - Jesus Cristo pregou o desapego aos bens terrenos; não condenou o sexo à condição de pecado; não excluiu ninguém e a sua pregação foi muito mais aceita pelos não-judeus que pelos seus próprios irmãos de raça.
E isso é História!
Tudo o que Jesus Cristo pregou e pelo que morreu, por que era verdadeiro e só assim as pessoas alcançariam os reinos dos céus, aqui existia em seu estado mais puro e natural.
As sociedades tribais aqui existentes eram a utopia pregada por Jesus Cristo.
Tudo o que ele pregara, aqui sempre havia existido como um modo de vida e um sistema social estável, onde as leis mantenedoras deles não precisaram ser escritas em extensos códigos de conduta porque elas eram vividas no dia-a-dia de milhões de índios brasileiros.
Mas, para a hipocrisia moral e religiosa europeia de então (ou será desde sempre?), essa sociedade tribal tão em acordo com a pregação dele deveria ser extinta a ferro (a espada) e a fogo (a bala), pois os índios eram tudo o que, segundo Cristo, eles deveriam ser, mas nao eram por causa da ganância, da intolerância, do racismo, da inveja, da ambição e do insaciável desejo de posse de bens e de terras e da hipocrisia quanto ao sexo.
Ao padre cristão não restou outra alternativa a não ser a de assistir ao extermínio de todo um povo, pois tudo o que Cristo pregara estava ali, na sua frente, mas não era aceito pelos seus fiéis, conquistadores a ferro e a fogo das terras onde estava a sua igreja, cada dia mais rica.
De fato e de verdade?
O fato e a verdade é que para o céu, se crerem realmente em Cristo, foram os índios, pois seus algozes (os brancos europeus e seus filhos brasileiros) só praticaram nesta terra abençoada tudo o que ele condenou.
Por isso e muito mais é que os nossos Caboclos índios se mostram tão belos e tão iluminados quando baixam de vibração e incorporam nos seus médiuns, provavelmente seus algozes em outra vida, aqui mesmo, há alguns séculos atrás.
Que creia no acaso quem quiser, mas que ninguém se engane porque nas coisas divinas o acaso não existe.
De fato, só os espíritos dos índios, desapegados do materialismo cristão, poderiam participar de uma religião, que tem entre um de seus fundamentos a presença majestosa e divina do mestre Jesus, pois este encontrou nos nativos brasileiros seus seguidores naturais.
Os índios (os nossos Caboclos!) são mais cristãos que os prosélitos de Cristo!
Não serão os atuais pregadores cristãos, os neo-salvacionistas, que enviarão para os céus seus seguidores, pois todos são adeptos da nova doutrina cristã, conhecida como teologia da prosperidade.
Os outros nomes da teologia da prosperidade são estes: ambição, usura, mercantilismo religioso, posse, intolerância religiosa e muitos outros.
Então, como o acaso não existe nas coisas divinas, só espíritos com uma noção superior sobre as verdadeiras leis da vida poderiam ser enviados à Terra para, incorporados em seus médiuns, orientar os infelizes encarnados, todos atormentados por uma sociedade que prega a competição em todos os sentidos e aspectos que formam o que chamamos de vida humana.
Só mesmo os nossos índios simples e cultuadores da verdadeira irmandade poderiam pregar o amor entre pessoas mais preocupadas com o sucesso pessoal do que com o bem-estar dos seus semelhantes.
Eles não incorporam nos seus médiuns para tornarem a "servir" aos senhores brancos, como já escreveram alguns estudiosos da Umbanda, e sim o fazem para mostrar a todos que fora da caridade e da fraternidade não há salvação para ninguém.
Ainda que em espírito, que o espírito dos índios viva para sempre em nosso imaginário religioso, pois sem saberem da existência de Jesus Cristo eles já vivenciaram a sua pregação, acontecida entre pessoas que, após sua morte, usaram-na para, daí em diante, dominarem a consciência dos seus semelhantes.
E se afirmamos isso não o fazemos por acaso e sim fundamentados no que pregam os neocristãos, todos mais preocupados em prosperar materialmente do que espiritualmente.
Observem que, mesmo tendo sofrido um verdadeiro genocídio, não vemos espíritos indígenas vingando-se ou obsediando pessoas.
A consciência desenvolvida por eles por séculos não comportava a vingança ou a obsessão pois não haviam desenvolvido o sentimento ou desejo de posse.
Ninguém se sentia dono de ninguém, e após o desencarne se sentiam livres.
Ainda que não tivessem a escrita dos europeus e seus conhecimentos fossem práticos e transmitidos oralmente de geração para geração, tinham noções elevadíssimas de conduta e moral.
Quanto ao caráter, a mentira, a dissimulação e a falsidade não se desenvolveram entre eles.
Podiam ser classificados como ignorantes ou selvagens pelos colonizadores, mas, indubitavelmente, eram espiritualmente superiores a eles.
Por tudo isso (moral, caráter, espiritualização, fraternidade, etc.), a Umbanda tem nos seus caboclos um dos seus graus mais elevados. E não são poucos os espíritos de outros povos que solicitam ingressar nas correntes espirituais umbandistas como Caboclos índios.
A riqueza de um espírito não se mede pelas suas posses, adquiridas quando viveu no plano material, tampouco por sua erudição ou pelo seu grau na escala hierárquica das sociedades terrenas. Outros são os critérios de avaliação da evolução espiritual de alguém.
À divindade não importa o grau cultural mas sim a nobreza dos sentimentos e a firmeza de caráter.
E nesses aspectos, os nossos Pais Caboclos índios eram, são e sempre serão ímpares!
Deem-nos a vossa benção, amados pais dessa terra abençoada onde viemos evoluir com o vosso amparo espiritual.
A benção, meu Pai Caboclo!

Texto extraído do livro "Os arquétipos da Umbanda, as hierarquias espirituais dos Orixás", do autor Rubens Saraceni, editora Madras.